Nanquim Sobre Papel: Geografia de Um Olhar

Acompanho o trabalho da artista Isaura Pena já há algum tempo e em 22 de novembro fiquei encantada ao saber da inauguração da exposição “Nanquim sobre papel: Geografia de um olhar”. Acontece na Galeria Primner, em Lisboa e está integrada no ciclo Diálogos com Amílcar de Castro. É o resultado de uma residência artística que a artista realizou em Portugal durante o mês de novembro. O resultado deste trabalho é uma mostra de desenhos da artista e uma intervenção site-specific na galeria.

Tinta da China sobre papel. Formato 65x55cm.

Ciclo Diálogos com Amílcar de Castro

De setembro a dezembro a galeria Primner apresenta o ciclo “Diálogos com Amílcar de Castro” com o objetivo de trazer para Lisboa artistas que hoje trabalham com a herança do concretismo e do neoconcretismo brasileiro. No segundo diálogo a galeria apresenta a artista Isaura Pena. A inauguração contará com a presença da artista.

SERRA-MÃE
Poema de Sebastião da Gama

O agoiro do bufo, nos penhascos…
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além:
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou.

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
–passam a dar-se em mim.

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar …

Ai não te cales, água murmurante !
Ai não te cales, voz do Poeta errante !

— se não a Serra pode despertar.

Extraído do Livro “Serra-Mãe ” de Sebastião da Gama

Colocamos aqui para vocês a apresentação da exposição feita pelo curador Antônio Pedro Mendes:

“Para Isaura Pena, a atividade artística não implica a construção de um objecto artístico na paisagem, mas sim uma actividade onde ela própria cria uma experiência através do espalhar do nanquim sobre papel. Será neste contrato com a natureza que a autora irá partir para a construção de árvores, conduzindo-nos a um usufruto da natureza decifrada nos seus desenhos.

A sua residência artística entre nós foi feita num local fora do bulício das grandes cidades. É interessante como o trabalho de Isaura Pena nos remete para um bom sentimento da atitude humana e da sua saúde física com a observação de uma maravilhosa árvore que dá pelo nome de Sobreiro. Esta árvore, talvez a mais nobre de Portugal, foi desenhada pelo mais alto dos nobres, o Rei D. Carlos em 1905, como podemos observar num quadro a óleo que está neste momento no Palácio da Casa de Bragança em Vila Viçosa.

Os Sobreiros criam em nós sentimentos de relaxamento que nos fazem sentir mais próximos da mãe natureza. Por outro lado, a relação destes desenhos com as esculturas de Castro, transporta-nos para um ambiente apaziguador. Neste local de exposição, a congregação da cor, linha e mancha irá conduzir-nos a experiências estéticas, literárias e relacionais das cores, de cheiros diferentes que nos proporcionam uma serenidade e exaltação dos sentidos. Não esqueçamos que o sobreiro nos dá as rolhas das garrafas de néctar precioso…

O cinzento intenso, o cinzento escuro ou o cinzento quase transparente; a composição das formas, a luz que une todas estas matérias e que une o mundo natural ao mundo das ideias dos desenhos leva-nos a uma viagem imaginada pela autora através dos caminhos do Parque Natural da Arrábida e com ela vamos caminhando pelo trajecto autoral que tem desenvolvido ao longo dos anos e que marcado por uma ambivalência entre o estar num ambiente mais harmonioso da escola e da relação com os outros e o afastar das pessoas e as suas vidas atarefadas de um quotidiano cheio de stress, obrigações e fingimentos.

Nestas imagens puras de troncos despidos de folhagem e com a sua dicotomia claro/escuro a vida vai fluindo mais devagar, respira-se muito melhor. Podemos olhar para a casca de uma árvore, sabemos que ao longe estará uma pedra, um ramo dependurado. Vemos os efeitos da luz ao longo do dia, ficamos sem defesas. Esse usufruir dos sentidos passa para o olhar de quem vê com olhos de ver os desenhos sincréticos de Isaura Pena.

Este mundo de beleza, de formas de cores, plantas, flores e árvores, encontra-se igualmente presente nos desenhos e esculturas de Amílcar de Castro. Encontra-se presente no seu todo Universal.

Estes desenhos são como uma súmula no domínio da espiritualidade, como uma comunhão com a natureza e de como queremos, tal com a autora, fazer parte dela. Cada desenho pertence a algo de mais global, onde a humanidade e as plantas formam uma unidade que foi materializada por Amílcar de Castro entre a Terra/Minério/Ferro/Aço/Madeira/Pedra nos trabalhos que desenvolveu ao longo da sua carreira e que vão dar o mote para esta aventura da residência artística na Galeria Primner.

De realçar no trabalho de desenho a “tinta da china” e a sua forma artesanal de tratamento do material, onde é possível criar várias camadas na superfície rugosa do papel que vão criando uma grande variedade de tonalidades de cinzento, revelando-nos, na sua versão final, uma versão da natureza fiel a si mesma. Uma natureza que não revela tudo mas também nada esconde.

Isaura Pena, com esta exposição, criou um conjunto de peças onde podemos observar uma arte mais autêntica, mais verdadeira, menos consensual. Uma arte que nos distancia da sociedade do “Rococó” actual, daquele “Rococó” que nos leva para cenários decorativos permanentes, cheios de cores fortes e emoções a toda a hora e onde a nossa retina é posta à prova de 5 em 5 segundos, aquele, onde a burguesia vai navegando nas redes e onde todas as imagens desaparecem a cada segundo. Isaura Pena, com o seu nanquim sobre papel, presenteia-nos com os desenhos quase austeros mas, ao mesmo tempo, de uma beleza que nos remete para a origem que brota de nós mesmos. Mostra-nos também até que ponto a autora sentiu esta residência como algo que pode fazer para poder expandir vários conceitos do seu trabalho.

A observação e registo das formas naturais de Portugal do Sul, podem ser um ponto de partida para desenvolver novos motivos de interesse para, num futuro não muito distante, serem novos referentes do seu trabalho.

Isaura vai criando uma imersão gradual no ambiente de modo a explorar novos elementos, formas e enquadramentos que serão analisados paulatinamente de maneira a atingir uma verdade nos sentimentos e nas sensações que nos acompanharam na feitura desta exposição. Saímos, todos os intervenientes, mais realizados.

Um bem haja, Isaura Pena.

Lisboa 18/11/2018
António Pedro Mendes”

Veja mais imagens desta bela exposição!

 

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